DO CORAÇÃO DE VOCÊS PARA O MEU E DO MEU PARA O DE VOCÊS

Por Nina Vilardi

O Mulheres in Rio surgiu na minha vida em março de 2020, no momento em que eu estava como artista colaboradora, no setor Arte e Conhecimento, do maior complexo cultural da América Latina, a Cidade das Artes. Além de fazer parte das reuniões de produção do Evento Especial do Dia Internacional das Mulheres, idealizado pelo Mulheres in Rio, ainda ganhei o papel de apresentadora, de última hora, literalmente.

 

– Aqui, Nina, o roteiro. É com você. – disse a Márcia Thimóteo, minutos antes do evento começar. Ela estava com dor de garganta, algo que dificultaria pra que apresentasse o dia inteiro de rodadas de conversas. 

 

Eu nem hesitei, mesmo sabendo que o evento era enorme e que estaria falando para centenas de mulheres, ao vivo, sem ter ensaiado nada.

 

A verdade é que já faz tempo que pegar um microfone e falar para dezenas, centenas e até milhares de pessoas, não é um problema pra mim. Acho que nunca chegou a ser. Desde a escola, eu era a escolhida para ler alto, falar na frente da turma, cantar e dançar na frente de todos.  

 

Aos 9 anos, eu já dançava em palcos pelo Rio de Janeiro, em eventos no Maracanã e outros palcos pela cidade. Aos 19, depois de voltar de um semestre estudando inglês em Santa Bárbara, na Califórnia, comecei a trabalhar na função de apresentadora e mestre de cerimônia em inglês de grandes eventos esportivos internacionais, como Grand Slam de Judo, Jogos Mundiais Militares, Copa do Mundo de Judo e Basketball Show. 

 

Exerci essa função esporadicamente ao longo dos anos, tendo a maior e melhor experiência aos 27 anos, sendo a apresentadora/ animadora cultural/ improvisadora/ mestre de cerimônias em inglês do palco principal do Parque Olímpico, o Rio Fest Stage, durante todo o período das Olimpíadas e Paralimpíadas RIO 2016. Essa experiência só foi possível porque além de ter investido tempo e dinheiro estudando inglês desde a adolescência, além de ter me formado em Comunicação na PUC-Rio, aos 23 anos, e ainda ter decidido seguir pela carreira artística, principalmente pelo teatro, o que turbinou todas as minhas habilidades na área. E também, por ter vendido meu carro, no final de 2015, para que eu pudesse passar os 3 primeiros meses de 2016 estudando Teatro Musical, em Nova Iorque, na New York Fim Academy, onde passava 12 horas por dia estudando e uma das matérias era o Improviso, em inglês, claro.

 

A ansiedade que tive que administrar no mês antes dos Jogos Olímpicos começarem, mais do que a experiência em si, me levou a outro patamar como profissional. Eu, num dos maiores eventos esportivos do mundo… um palco, um microfone e todos os olhos e ouvidos presentes, voltados para o que eu daria como informação, no que alguns momentos se revelaram como uma apresentação ao vivo para 100 pessoas… outros momentos para 20 mil, outros para um número incontável quando havia câmeras transmitindo ao vivo.

 

Número de pessoas me assistindo nunca me assustou ou impediu de nada. A minha preocupação com o resultado tem sempre a ver comigo, em primeiro lugar. Se eu estudei o meu máximo, se eu dei o meu melhor, independente da plateia. 

 

Minhas grandes conquistas sempre começam no silêncio do meu quarto, sem nenhuma testemunha, nas minhas batalhas contra as minhas crises de ansiedade, no âmago da minha determinação, que sempre foi muita e por motivos diversos. O resultado, pra mim, é apenas coroação, não é o que costuma me movimentar e não é aonde reside minha maior alegria. Eu gosto do aprendizado no processo. Em geral, me cobro tanto, que no final de processos, respiro mais de alívio do que de felicidade.

 

– Aqui, Nina, o roteiro. É com você. – disse a Márcia Thimóteo, minutos antes do evento do Dia Internacional das Mulheres começar.

 

Eu nem hesitei. 

 

Eu nem hesitei porque, aos 31 anos, idade que eu tinha em março do ano passado, eu tinha experiência suficiente para fazer com competência o que era necessário, experiência suficiente para que nenhum monstro da autossabotagem pudesse me assombrar.

 

Ter focado na minha capacitação nos meus primeiros dez anos de carreira, ter trilhado o meu caminho com meus próprios pés, encarando absolutamente todos os meus medos de frente nos últimos anos, fizeram com que eu me tornasse essa artista, mulher de quase 33, com pés no chão, olhos em mim, nos outros e na lua, ao mesmo tempo. 

 

Uma mulher que sabe muito sobre a teoria e prática de muitos assuntos, e que sabe principalmente, que de muitos outros assuntos sabe pouco ou até mesmo, absolutamente nada. E que não só pode, como deve, aprender. Sempre.

 

Tenho muitas histórias para escrever, contar e viver ainda, muitos projetos, personagens, cenários e desafios pela frente, entre eles, o da maternidade. Tenho também muitas histórias para ouvir. Cada pessoa é um livro a ser lido se se deixar abrir. E eu… estou interessada em ler todos eles. Óbvio, vou morrer sem ler todos que eu gostaria, mas os que caem na minha mão, eu deixo me invadir e transformar. 

 

E como os livros, deixo que cada pessoa que o universo me apresenta, caso tenhamos tempo hábil para trocar alguma ideia mais profunda, me mostre seu universo particular. Eu sou fascinada por universos particulares convivendo, reluzindo.

 

Termino esse meu primeiro texto, que não sei bem se é um artigo ou uma carta de apresentação- mas sendo o primeiro, acho que é importante que seja assim – querendo mostrar um pouco o que tem por trás de uma foto, um currículo e até mesmo dessas letras frias.

 

Não caio de paraquedas neste grupo de empreendedoras engajadas e inspiradoras. Minha mãe e meu pai são grandes empreendedores e, sem dúvida nenhuma, me criaram para empreender. Donos de casas de festas, eu ouvia “Quer dinheiro?! Trabalhe!”, e nos meus 13 anos, ao invés de darem fartas mesadas, me ensinavam que trabalhar como monitora de cama elástica, recepcionista e animadora, não só não me mataria, como me ensinaria cedo o valor do dinheiro… e que NADA cai do céu.

 

Me criaram para empreender, investiram nas melhores escolas para que eu me capacitasse e fizesse, mais do que falasse ou sonhasse. Quando terminei o roteiro da minha primeira peça, meu pai disse, “Muito bom, mas com peça na gaveta, textos na gaveta e pessoas com desejos, tem muita gente. Quero ver fazer”. 

 

Três meses depois a peça estava em cartaz. Peça em que eu também atuava, e produzi ao lado de outros 6 jovens empreendedores, em 2012. 

Para colocar essa peça de pé, eu tive como líder, me guiando, uma mulher, que foi a responsável pelas minhas mais significativas oportunidades no meio artístico até hoje. Uma mulher empreendedora e professora, chamada Maria Beatriz Oliveira, que me incentivou a mergulhar em cada função que aparecia na Cia de teatro dela, que me incentivou a assumir meu eu dramaturga, meu eu atriz, meu eu produtora, meu eu preparadora de elenco, meu eu diretora e o meu eu incansável, que arregaça a manga e faz. Que resolve problemas, que não se esconde, que luta. 

 

E QUE LUTA É SER MULHER nessa sociedade patriarcal, machista e misógina. Se tratando de ser mulher no mercado de trabalho, aos poucos, fui me tornando “mais uma”, aos poucos fui me tornando estatística quanto a assédios e abusos no meio… expresso artisticamente a minha angústia no filme feito todo por mim na pandemia, para “mulheres e homens que estejam dispostos  a dialogar”, chamado Desculpa, disponível no YOUTUBE. 

 

Sim, repito: E QUE LUTA É SER MULHER nessa sociedade patriarcal, machista e misógina. 

 

E escrevo isso dando ênfase, mas sem o ódio em que senti quando constatei e confirmei isso na prática, no meu dia a dia e não só através de depoimentos, livros e estatísticas. Escrevo isso com a frieza cirúrgica de um médico que dá um diagnóstico sério e complicado, mas que sabe que só enfrentando a dura realidade, a doença, que é possível buscar os remédios, o tratamento, a vacina e até mesmo, atuar na prevenção, na cura e quem sabe na vacina, no antídoto.

 

O Desculpa me aproximou demais das mulheres, de todas idades, todo tipo de aparência, todo tipo de poder aquisitivo, todo tido de profissão e de diversos lugares do Brasil. Recebo com frequência depoimentos emocionados por terem sido tocadas pela obra, de alguma forma, em algum lugar. O Desculpa me aproximou do universo feminino no todo, de questões da condição de mulher na sociedade, me aproximou de mim mesma, da minha essência criativa, artística, prática, bruta, feminina, simples e complexa, explosiva, mas sobretudo amorosa.

 

Foi com amor que recebi o convite da Veronique para integrar esse grupo de mulheres que eu quero tanto conhecer e trocar. Foi com amor que a Márcia me recebeu em 2020, nos dias de produção do evento, no dia em que achou legal que eu lesse Shakespeare ao final do evento e em cada conversa nossa no whatsapp desde então. Sempre rápidas, mas sempre intensas e cruciais na minha trajetória.

 

Coincidência ou não, minha equipe na Cidade das Artes era só de mulheres, éramos sete, numa gestão em que tinha como presidente e diretora artística também duas mulheres. Que sorte a minha. Pude aprender o quanto é possível uma gestão acolhedora, muito atenta a realidade de cada uma, muito parceira e sensível com as demandas de cada uma da equipe. Fui acolhida.

 

E o meu desejo, é que assim seja também neste grupo de mulheres inspiradoras. Que eu seja acolhida, e talvez possa acolher. Em minha defesa, caso eu precise de uma (rs), quero deixar aqui registrado que costumo seguir um conselho que minha mãe sempre me dava quando ia dormir na casa de alguma amiga na infância e adolescência:

 

“Filha, por onde passar, deixe tudo como estava, ou melhor, nunca pior.” 

 

Levo essa orientação para a minha vida. Para os meus trabalhos, para os meus relacionamentos. Se não posso ajudar, não atrapalho. Espero poder ajudar.

 

 

Nina Vilardi: artista carioca. Exerce as funções de atriz, roteirista, diretora, apresentadora bilíngue e produtora cultural, entre outras que surgem dentro da carreira artística. Formada em Comunicação pela PUC-RIO e com a formação teatral marcada pela CAL- Casa de Artes de Laranjeiras, Tablado, New York Film Academy e The Second City- Los Angeles. É autora da peça premiada como Melhor Espetáculo no Festival de Teatro do Rio de Janeiro, Brainstorming Anônimos, da peça adulta “O Fantástico Mundo da Hipocrisia” e da infantojuvenil “Me imagine”. Em 2018, ganhou o prêmio de Melhor Atriz, no II Festival de Cenas Curtas Biarte, pelo monólogo autoral “Estrelinha”. Em 2020, na pandemia, criou o filme Desculpa, onde mistura poesia, cinema, teatro, música e filosofia, para falar de questões como feminismo, depressão, assédio e carreira, entre outros temas. Desde 2020, é artista colaboradora no setor de Comunicação, Pesquisa e Criação de Conteúdo, da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro.

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